A intolerância religiosa é um problema
que assombra o mundo inteiro. O artigo 5º da constituição federal de 1988
assegura que é livre o direito ao exercício da crença e dos cultos religiosos e
garante proteção aos locais de culto e suas práticas. Mas isso não impede que
as pessoas ajam de maneira intolerante contra religiões que fujam
principalmente dos dogmas cristãos. Em 2018, no Brasil, foram registrados mais
de 500 casos de intolerância religiosa. Os dados são do Disque 100 (Disque
Direitos Humanos) e mostram que o candomblé e a umbanda são as mais afetadas
pelo preconceito, com 47 e 72 denúncias, respectivamente. Por consequência do
racismo estrutural impregnado em nosso país, as religiões de matriz africana
encontram enorme dificuldade para exercer seu espaço que é assegurado pela lei.
As pessoas, sem conhecerem a origem ou as bases de uma religião, julgam como
malignas até mesmo religiões como a umbanda, que é de origem brasileira e
cultua os mesmos santos que o catolicismo.
O número de denúncias referente a ataques a religiões de matrizes africanas no Brasil aumentou cercade 47% apenas em 2019. Violência moral, depredações de terreiros e agressões
físicas foram as principais denúncias relatadas, segundo dados oficiais
levantados pelo Disque 100 do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos
Humanos. Em janeiro de 2019, seis homens armados invadiram uma cerimônia de
saudação a Oxalá em Camaçari na Bahia e depredaram o local. Os Intolerantes espancaram
o líder religioso que celebrava a cerimônia e agrediram verbalmente os
presentes, adeptos do candomblé, enquanto o roubavam. Esse é apenas um de
vários casos envolvendo intolerância religiosa com adeptos do Candomblé e
Umbanda no Brasil.
Em contraste, a
região do Crajubar (Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha) é conhecida por
abrigar um dos maiores movimentos religiosos católicos do mundo: as romarias. A
Exemplo, no fim de outubro de 2019, a região recebeu cerca de 480 Mil Fiéis
para a "Romaria de Finados", conhecida popularmente como
"Romaria da Esperança". Por concentrar um cristianismo muito forte e
ter o Padre Cícero como padroeiro da região, a intolerância religiosa com
adeptos da Umbanda e Candomblé intensifica - se mais ainda. Em entrevista para
nossa reportagem, o Pai Francisco do Centro de Umbanda "São Jorge
Guerreiro", em Juazeiro do Norte, comentou sobre os preconceitos vividos
por quem é adepto dessa religião: "Fazemos caminhadas sobre a religião
para acabar com a opressão [...]". A Caminhada relatada pelo Pai Francisco
acontece anualmente na Região do Cariri, desde meados de 2009, concentrando
pessoas de fé do Candomblé, Umbanda e Jurema, religiões de matrizes africanas.
A Caminhada serve como um movimento sócio-político-religioso, além de
demonstrar resistência aos preconceitos vividos. A liberdade religiosa, assim
como a segurança nos templos, também são pautas da caminhada que pretende
contribuir no processo de aceitação e orgulho da cultura.
No Cariri, a presença de centros de
umbanda e candomblé é bastante notável. Só
em Juazeiro do Norte, de acordo com o Diário do Nordeste, centenas de terreiros
estão ativos, porém, não é possível especificar números pois muitos ficam na
casa dos líderes (pais e mães de santo). Entretanto, o historiador Renato
Henrique Guimarães em seu livro "Registro da Umbanda", apenas oito
terreiros estão registrados oficialmente Município. Quanto ao Candomblé, são
15, sendo a maioria no bairro João Cabral, periferia da cidade.
Fomos à procura de dois representantes dessas
religiões para falar sobre essa intolerância e observar a dificuldade que
muitas vezes eles encontram para exercer suas crenças. Cristina Morgan, de
Juazeiro do Norte, é praticante do candomblé e falou abertamente sobre um
episódio de preconceito que ela vivenciou. Impedida de entrar em sua escola por
estar vestindo branco ao invés do fardamento escolar, Cristina conta que teve
que passar um bom tempo tentando convencer o porteiro que já havia recebido
autorização da direção para usar branco nas sextas – dia reservado para
homenagear Oxalá. “O guardinha disse que eu não podia entrar na escola, pois eu
não estava de uniforme, e falou que eu não podia entrar usando meu fio de
conta”. Além desse episódio, Cristina falou sobre como se sente magoada com os
olhares que recebe na rua ao usar as roupas brancas. “Quando a gente está
vestido com as nossas roupas brancas e vai andando nas ruas, as pessoas olham
com outro olhar para você. Isso magoa tanto, porque eu nunca desrespeitei
alguém.”
Com
a posse do presidente Jair Bolsonaro e a crescente onda do conservadorismo
cristão, os adeptos do Candomblé e da Umbanda estão sendo constantemente
ameaçados e caçados por um Estado que não defende um país laico. Alguns casos
estão sendo investigados desde agosto pela Delegacia de Crimes Raciais e
Delitos de Intolerância (Decradi), envolvendo pastores de igrejas evangélicas e
mesmo traficantes. Um pastor não identificado que prega em uma Assembléia de
Deus Ministério Portas Abertas ordenou ataques intolerantes e discriminatórios
a uns terreiros de Umbanda e Candomblé em Duque de Caxias, na Baixada
Fluminense. O Grupo era denominado de "Bonde de Jesus" e já ameaçaram
cerca de 200 terreiros de religião de matriz africana. "A gente
identificou 21 traficantes e conseguimos prender oito. Um deles identificou o
pastor que era o porta-voz do traficante, que determinava a invasão de centros
de cultura afro descendente", afirmou o delegado Túlio Pelosi.
Pai Francisco
Para entender melhor a situação dos praticantes do Candomblé e Umbanda, fizemos uma entrevista com um pai de santo de um centro de Candomblé. Pai Francisco, do centro São Jorge Guerreiro localizado no bairro Pio XII em Juazeiro do Norte.
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| Pai Francisco, Centro São Jorge Guerreiro. |
Como
você iniciou na Umbanda?
A
gente vem da nação africana, a minha mãe era media de umbanda e através da
minha mãe que a gente trouxe a falange dos Orixás. (...) Quando eu entrei na
umbanda eu tinha sete anos de idade, aí fui desenvolvido pelo Antônio Lourenço,
que já partiu dessa vida para outra... fiz minhas obrigações, meu pai Ogum, que
é São Jorge Guerreiro pediu... casa, que casa pá Orixá é barracão que nem cês
tão vendo aqui. E aí (...) a gente foi fazendo as minhas obrigação e eu estou
levando a casa né. Hoje tenho vinte e sete filhos de santo na casa graças a meu
pai Ogum e aos poucos vamos chegando lá.
Você
acredita que aqui no Cariri, por ser uma região muito adepta ao cristianismo,
principalmente com a imagem do Pe Cicero, a intolerância com quem é da Umbanda é
mais explicita?
É a gente samo muito... criticado, é a gente (os outros) tem
muitos preconceito com agente, e a gente todo ano agente faz uma caminhada
sobre a religião, pá acabar com a opressão sobre os negros, é... porque a gente
trabalha com muita corrente de negros, os preto véi de Angola, os africano. Aí
o qué que acontece, aí a gente faz a
passeata todo ano, a gente saí da prefeitura e vai até o memorial Pe Cicero pá
acabar com o preconceito, contra os negros, contra a religião da Umbanda,
contra a religião dos “crente”, porque a gente respeita todo tipo de religião,
então agente batalha, a gente luta, mas, a gente não tem apoio de ninguém até agora,
pá acabar com esse tipo de disciminação.
Já passou por alguma situação de preconceito explicito
por causa da sua religião? Se sim qual?
Já, tava tendo ritmo na minha casa... é... a polícia chegou,
mandou parar minhas atabaque e eu tive que parar.
Por que você acha que as pessoas tem tanto medo das
religiões de matriz africana como a Umbanda?
Eu acho que é gente que não procura saber a verdade, não
procura saber a verdade e gente desocupado que não tem tempo de corrigê sua
vida, vê o que é uma religião pá podê citricar... Assim eu fico sem entender
por que a gente que é umbandista, o povo do candombé, o povo da Angola, o povo
do gueto é tudo discriminado.
Na sua família há pessoas católicas? Se sim, como eles se
comportam em relação a sua crença?
Dá Umbanda só tem eu, minha mãe e um irmão meu, o resto
“tudo são” da Igreja Católica, e eu também sou católico.
E como é que
funciona as duas religiões juntas?
Não, por causa que assim, o Deus é um só, o Deus do Japão é
o Deus do Brasil e o Deus do Brasil é o Deus dos Estados Unidos, a gente não
serve a dois senhô, a gente só serve a um, se chama o divino Espirito Santo,
que na Umbanda a gente cultua ele como Oxalá, Xagian. A gente, a religião
Umbanda é a mesma religião católica, você pode vê, que no meu pezin tem mais
estaulta se Santo da Igreja Católica do que mêmo da Umbanda. Porque aqui é São
Cosme e Damião que nem cê tá vendo, Santo Antoin, São Sebastião, Nossa Senhora,
São Jorge.
É a junção das duas então, da religião que veio da África
com o Catolicismo?
Isso, porque a maioria dos Orixás, ele vem representando a
Igreja Católica, Iansã que é Santa Bárbara, na Umbanda é um Orixá e na Igreja
Católica é santa.
Muitas pessoas acham que Umbanda e Candomblé são a mesma
coisa e chamam logo de macumba, qual é a principal diferença entre elas?
Tem, por causa que o Candomblé, os babalorixá do *Candomblé
trabalha mais na linha africana, mais diretamente com o Orixá do santo, já nós
não, a gente trabalha com a raiz pura, trabalha diretamente com o espírito
mesmo.
Como umbandista, como você vê o cenário atual
brasileiro onde o preconceito parece estar mais forte, principalmente com este
governo?
Rapaz em termo de esse presidente que a gente tamos termos
nossa religião, não, até agora não mudou nada. Nem melhorou, nem apiorou, tá a
merma coisa.
Conhecendo um Pouco das Entidades
Conhecendo um Pouco das Entidades
Algumas entidades do Candomblé e da Umbanda são as mesmas, embora cultuadas com imagens diferentes.
No Brasil Colônia, a tentativa de apagar
a religião dos indígenas e dos povos trazidos da África, com a catequização,
acabou originando religiões sincréticas – religiões formadas a partir da união
de diversas doutrinas diferentes. Os africanos escravizados aqui no Brasil eram
proibidos de exercerem sua religião, que era considerada bruxaria. Assim, para
disfarçar, eles passaram a cultuar seus deuses utilizando os santos católicos,
e assim foi se formando o candomblé da forma como é praticado no Brasil. Na
África, existe um orixá específico para cada região na qual a religião é
praticada. Já no Brasil, com a modificação que o candomblé sofreu, é realizado
o culto a diversos orixás de uma só vez. Nos rituais candomblecistas, são
realizadas homenagens aos antepassados e o culto aos orixás. Nessa religião,
são trabalhados os problemas da vida terrena, a felicidade dos seres e a
preservação dos elementos da natureza. Existe a conexão entre passado, presente
e futuro, e a preocupação com as energias. Assim, com a liderança do pai
(babalorixá) ou mãe de santo (iyalorixá), celebrações com danças ao som do
atabaque são praticadas para a revitalização dessas energias, e para o culto
aos orixás – que muitas vezes representam elementos da natureza.
Com esse cenário de opressão e
intolerância contra as religiões que aconteceu no Brasil Colônia – e acontece
até hoje – o sincretismo religioso também se fez presente nas origens da
umbanda. Com elementos herdados também do candomblé, a umbanda fez-se religião
em 1908 e tem seus pilares principais no catolicismo, nas crenças ameríndias,
em religiões de matriz africana e no kardecismo. A origem da umbanda teria se
dado quando Zélio Fernandino de Moraes, nascido no Rio de Janeiro, incorporou o
espirito do Caboclo das Sete Encruzilhadas, que o ajudou a criar a religião. Os
princípios básicos da umbanda são caridade, fraternidade e respeito ao próximo e,
por isso, nenhum trabalho umbandista pode ser cobrado, o principal objetivo é
ajudar. As celebrações umbandistas em muito se assemelham ao candomblé. Com a
liderança de um pai ou mãe de santo, são realizados rituais com danças ao som
do atabaque, e a renovação das energias é um dos principais objetivos. Quando
identificada a presença de energias ruins, são realizadas sessões de descarrego
dessas energias. Na umbanda também são feitas celebrações ao ar livre, em
harmonia com a natureza.
Um fato importante de
ressaltar é que a intolerância religiosa contra a Umbanda e o Candomblé é sustentada
pelos mais de 400 anos de escravidão. Ou seja, o Brasil Colônia ainda rege o
racismo religioso mesmo após séculos, demonizando e criando mitos aos seus
adeptos de religiões de matriz africanas. As perseguições ainda consistem por
partes de seguidores de outras religiões e remetem aos mesmos atos usados
anteriormente. “Qualquer ataque com contornos de destruição do sagrado tem
caráter de racismo religioso. À violência que já existe contra essas religiões
– que têm uma série de direitos negados -, se soma agora a do varejo de drogas.
Mas a violência contra elas é permanente desde a época colonial", diz
Livia Cásseres, Defensora pública e coordenadora do Núcleo Contra a
Desigualdade Racial (Nucora) da Defensoria Pública do Rio de Janeiro.




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